abandono
Vidas inteiras institucionalizadas

Conheça a história de duas moças que cresceram dentro da Fundac

 

Nem Mikaely nem Rosana, ambas de 19 anos, se lembram do dia em que foram encaminhadas a um abrigo. As duas moças foram afastadas ainda pequenas de suas famílias e cresceram sob a responsabilidade do Estado. As lembranças da infância são esparsas e sem linearidade. Na falta de uma família, os referenciais tomados são funcionárias da Fundac que as viram crescer.

Com poucas ligações com o passado, Mikaely e Rosana tentam construir suas vidas e se libertarem da dependência da Fundac. Mas agora o desejo é uma obrigação. A Casa Vovó Geralda, abrigo em que as duas vivem, será desativado no próximo mês de julho e as internas terão que ser desabrigadas, já que o Estado apenas é responsável por pessoas com até 18 anos. Para alcançar a independência, as moças enfrentam as mesmas dificuldades que um jovem pobre enfrentaria – pouca escolaridade, a falta de oferta de emprego, uma sociedade sem muitas oportunidades.

“Como não ter medo? Eu estou aqui desde pequeninnha. E agora sair só e ir para o mundão. Eu fico muito pensativa com essas coisas todas e sem saber o que fazer”, conta Rosana, que possui um déficit de aprendizagem e ainda não sabe ler. A expectativa da moça é que, depois da desativação do abrigo, ela vá para a casa de uma educadora. “Eu queria mesmo arrumar um emprego. Quem vai querer uma mulher velha dentro de casa dando despesa? Sem contar que é muito chato saber que não está ajudando em nada. Eu queria trabalhar de faxineira”, sonha Rosana, que fez curso de manicure e confeitaria de bolo.

Rosana não mantém qualquer contato com a família e da vida antes do abrigo só lembra que morava em uma casa feita de barro. “Não tenho raiva da minha mãe. Acho que ela me deu porque não podia cuidar de mim. Parece que era muito pobre. Deve ter sido melhor assim”, acredita, demonstrando resignação.

Já Mikaely cresceu em abrigos juntamente com dois irmãos. Nunca viu o pai e cresceu ouvindo que, quando era recém-nascida, a família teve que mudar de várias cidades para fugir dele, que queria matá-la. A mãe era alcoólatra e não tinha condições financeiras de ficar com as crianças. “O fim mesmo foi quando ela entrou bêbada dentro do abrigo, falando um monte de besteira. Aí, o juiz tomou a gente dela definitivamente”. Mikaely não lembra quantos anos tinha nessa época.

O irmão mais velho, hoje com 27 anos, voltou logo para a mãe. O outro irmão, atualmente com 24, foi levado para um abrigo diferente do de Mikaely, por estar envolvido com furtos e drogas. “Terem tirado meu irmão de mim é a única coisa que me revolta. Quando eu ‘tava’ perto dele, podia dar conselhos. Depois, ele fugiu do abrigo e faz de tudo – rouba, mata, é viciado. Às vezes, encontro com ele quando vou no Centro”.

O irmão mais velho nunca deixou de visitar Mikaely, ao contrário da mãe da jovem que nunca foi vê-la. Agora, ele luta pela união da família. “Meu irmão mais velho me disse que mãe deixou de beber e que agora ‘tá’ morando em uma invasão do MST, pro lado do Arruda. Então, eu fui lá conhecer.”, conta. O irmão mais velho está desempregado e a mãe sustenta a casa com dinheiro que pede no sinal. Apesar do reencontro da família, ocorrido em janeiro deste ano, a menina não quer mais voltar para casa. “Quando eu vi mãe, eu não senti nada. Pra mim, ela é uma estranha. Meu irmão é boa pessoa, mas é muito ignorante. Eu queria mesmo era morar só”. Mikaely está terminando o Ensino Médio e deseja ser professora de português.

Como Rosana e Mikaely, outras sete jovens estão no mesmo impasse. A coordenadora do abrigo, Viviane Sybalde, afirma que as abrigadas terão todo apoio para começar suas vidas fora dos muros da instituição. “A Fundac não deixará ninguém sem assistência. Estamos tentando inseri-las de volta nas famílias, algumas demonstram a vontade de formar uma república e outras ficarão com educadoras”, diz. Das nove, apenas uma trabalha e tem renda para se sustentar.

De acordo com a diretora da Área Protetiva, Raquel Corrêa, a Fundac ajuda aos abrigados desligados com cestas-básicas e móveis para a casa nova. “A gente tem que trabalhar com essas pessoas desde pequeno, mostrando que são capazes e que podem caminhar com as próprias pernas. A maioria tema uma auto-estima baixíssima, sem contar o estigma de ter crescido na Fundac, mesmo que seja nos abrigos”, pondera.


*Todos os nomes de adolescentes desta matéria foram trocados em respeito à privacidade deles e ao Estatuto da Criança e do Adolescente.

 

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