“Quando nos lembramos da casa, dos aposentos, aprendemos a morar em nós mesmos. Assim as imagens da casa estão em nós como nós estamos nela”, defendia o filósofo francês Gaston Bachelard. Local de acolhimento das crianças e dos adolescentes que passaram por dramas pessoais e sociais e agora estão sob a tutela do Poder Público, os abrigos representam, parafraseando Bachelard, o canto no mundo para os seus moradores. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), 80 mil crianças e adolescentes vivem em abrigos espalhados pelo Brasil. Em Pernambuco, ligadas à Fundac, são dez unidades, que tentam simular o ambiente de lar e onde habitam 317 meninos e meninas.
Meninos do Estado
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Desenho da Casa da Madalena feito por uma menina de 7 anos |
Na Casa de Carolina, o primeiro cômodo a se ver não é o de uma sala ou de um terraço, como seria comum na grande maioria dos domicílios brasileiros. Adentrando ao abrigo, é impossível não observar de imediato a constituição de repartição pública. Papéis, mesas e funcionários da administração dão conta do ar burocrático e quebram a idéia de aconchego que um lar deveria possuir. Na Casa da Harmonia, no Recife, por exemplo, instalada num imóvel de dois pisos, o térreo é ocupado pelos funcionários da Fundac, enquanto o primeiro andar acomoda a estrutura de casa propriamente dita.
Se qualquer uma das crianças da Casa de Carolina for perguntada em qual quarto dorme, prontamente responderá que dorme no setor tal. Não há a idéia de individualidade, nem tampouco a de pertencimento. Não poderia ser diferente. Dormem em quartos com mais de dez, quinze crianças, dentro do modelo antigo de orfanato. Muitas vezes, as camas não apresentam nenhum espaço entre si, resultado da superpopulação que o abrigo, único a passar por isso na Região Metropolitana do Recife, enfrenta.
Apesar disso, a estrutura de “setores” da Casa de Carolina é de primeiro mundo. Os quartos são climatizados; as paredes, coloridas; as pias, adaptadas para o tamanho dos pequenos. No quarto dos meninos, uma prateleira acomoda várias miniaturas de super-heróis e personagens de diversos desenhos animados, frutos de doação. “Venha olhar onde a gente dorme pra ver como é bonito”, convida um dos abrigados. Também há aparelho de TV e um de DVD no ambiente.
Conforme orientações técnicas divulgadas este ano pelo Ministério do Desenvolvimento Social, “o espaço físico do serviço de acolhimento deve ser aconchegante e seguro, com padrões arquitetônicos semelhantes ao de residências, organizado de modo a favorecer a privacidade, a interação das crianças/ adolescentes e a exploração do ambiente”. As orientações são um desdobramento do Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Direito de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária, formulado em 2006 pelo Conselho Nacional de Defesa da Criança e do Adolescente (Conanda) e pelo Conselho Nacional de Assistência Social.
No Ceac I, a Administração do abrigo afirma está se adaptando ao Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária, inclusive passou as dependências burocráticas para um anexo, localizado no fundo do espaço. Mas, no dia em que a reportagem esteve na casa, as crianças apenas podiam usar o espaço do quintal do terreno. A casa estava fechada a chaves. O motivo do trancamento, segundo uma das educadoras, era a bagunça das crianças. Os móveis da sala são impessoais, bem como os quartos dos meninos, quando a habitação devia possuir ligação íntima com a pessoa que habita. Poucos objetos decoram a casa e, assim, o espaço deixa de transmitir sua personalidade.
ARQUITETURA
A professora de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pernambuco e organizadora do livro A casa nossa de cada dia, Lúcia Leitão, acredita que a falta de relação com a casa é uma grande violência no nível da subjetividade, como seria o exílio ou uma prisão política, já que a arquitetura é também uma experiência humana subjetiva. “Atualmente, eu estou trabalhando com um teórico (Christopher Bollas) que diz que mudar de casa é perder os caminhos internos. Assim, não ter casa talvez seja não construir caminhos internos. Com certeza, a arquitetura tem um lugar na equação das dores do abandono”.
“À idéia de segurança
parece estar associada à idéia de lugar, ou seja,
um sentimento de pertinência que a casa propicia. A
casa inscreve o indivíduo num clã”, afirma
Lúcia. Para ela, uma casa implica um sobrenome, um
pertencimento a uma família, por mais nuclear que esta
seja. Estar inscrito em um clã significa dizer que a pessoa
não está solta no mundo.
CONSERVAÇÃO
A conservação de alguns prédios da Fundac deixa a desejar. A estrutura da Comunidade Emocy Krause, abrigo feminino para pessoas de deficiências leves, parece estar se desfazendo. No terreno, há piscina e parquinho, com escorrego e balanços, mas tudo com um porém. A piscina está desativada há quase um ano por conta de um vazamento. Do balanço, só restou a estrutura de ferro em que deveriam estar penduradas as cadeiras. Já a ferrugem tomou conta do escorrego. Até a placa da inauguração, colocada em um tronco de árvore, mal pode ser lida. Problemas parecidos também podem ser observados na Comunidade Rodolfo Aureliano e na Casa
Vovó Geralda.
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