Já se foi o tempo em que a maioria das crianças e dos adolescentes em abrigos era de órfãos. Ao contrário do que se pode pensar, a maior parte das crianças não chega aos abrigos a partir do abandono voluntário e consciente da família. No Brasil, conforme dados apurados em 2003 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 87% das crianças e adolescentes abrigados têm família e 58,2% ainda mantém vínculo familiar. São histórias permeadas de violência, negligência, pobreza e situação de risco que as afastam de seus lares.
Maternidade, de Pablo Picasso
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No Brasil, 87% das crianças e adolescentes abrigados têm família e 58,2% ainda mantém vínculo familiar |
Os casos de agressões provocadas por quem deveria proteger têm destaque nesse processo. É ainda no seio familiar que esses pequenos se deparam com a violência, multifacetada nas mais diversas classificações. A violência não só afasta da família de origem, como afasta de outras famílias. As crianças mesmo destituídas do pátrio poder e prontas para a adoção guardam na alma as marcas dos traumas. E, normalmente, os interessados em adotar querem crianças com histórias ainda a serem escritas, como um livro em branco.
Vanessa, de 5 anos, é uma das 48 crianças vítimas de maus tratos que estão abrigadas em uma unidade da Fundac. “Agora eu só tenho minha vó e minha mãe. Meu pai ‘tá’ no presídio, sabia? ‘Tá’ preso. Ele deu facada na minha mãe (faz gestos demonstrando o ato). Daí me trouxeram pra cá”, fala a menina. A assistente social responsável pelo caso, Ivonete Gambôa, confirma a prisão do pai por violência contra a mãe da menina, mas não ratifica se a menina presenciou a cena. “Oficialmente, essa informação não chegou ao Serviço Social. É possível que seja verdade já que o pai está preso por violência contra a mulher. Mas é preciso sempre ter cuidado nessas situações. As crianças fantasiam muito”, pondera Ivonete.
Ao passo que conta das facadas que diz ter visto, Vanessa segue com sua infância e descreve como matou um monstro na noite anterior, misturando realidade e fantasia, sem saber muito bem o lugar ocupado por cada uma. “Eu vi um monstro no brinquedo. Monstro não pode ficar no brinquedo, né? Daí, eu peguei e, daí, dei um murro nele assim, ó”, conta, fazendo os mesmos gestos utilizados para demonstrar as facadas sofridas pela mãe.
Quase sempre também há histórias de abuso sexual, como a do pequeno Daniel, de 5 anos. “Um velho fazia safadezas comigo. Mas agora ele ‘tá’ preso e lá no presídio vão matar ele. To esperando a notícia da morte dele”. O “velho” em questão era o marido da avó, com quem o menino morava. Histórias como as de Daniel se multiplicam, mas poucas vêm à tona, já que a violência sexual é uma agressão silenciosa. Mesmo com um trauma de abuso sexual, no cotidiano, Daniel conserva uma doçura que só os pequenos possuem.
Perfil
De acordo com dados divulgados pela Fundac, dos 675 crianças, adolescentes e jovens atendidos no ano de 2007, 65% dos abrigados eram do sexo masculino. Já no tocante à idade, 16,3% tinham de 0 a 2 anos. O segundo lugar fica com os adolescentes de 13 e 14 anos. Uma surpresa no terceiro lugar. Mesmo o público-alvo da instituição sendo formado por pessoas menores de 18 anos, 11,85% do total de atendidos já haviam alcançado a maioridade. Não há estatísticas sobre a cor da pele dos abrigados. Dos 675 crianças, adolescentes e jovens abrigados em 2007, 190 retornaram às suas famílias e 30 foram adotados.
*Todos os nomes de adolescentes desta matéria foram trocados em respeito à privacidade deles e ao Estatuto da Criança e do Adolescente.