“O
mais importante e bonito no mundo é que
as pessoas
ainda
não foram terminadas, mas estão
sempre mudando.”
Guimarães Rosa
Os
meninos do estado em questão são as crianças
e os adolescentes que vivem sob a responsabilidade da Fundação
da Criança e do Adolescente (Fundac), órgão
ligado ao Governo de Pernambuco. No estado, são pouco
mais de 1,3 mil adolescentes infratores e 300 abrigados (destituídos
do pátrio poder ou em processo de destituição) que crescem
institucionalizados. Se a situação
chega a esse ponto, é porque a família e a as
políticas
públicas falharam e falham cotidianamente.
Não foram raras as vezes que interpelaram sobre de
onde havia surgido a idéia de abordar a temática.
As perguntas, via de regra, não eram feitas no âmbito
da mera curiosidade. Havia nelas uma inquietação
maior – resultado de uma estupefação diante
da escolha. Como e porque alguém iria querer desvendar
o mundo dessas crianças e desses adolescentes? A cada
pergunta, a certeza ainda maior de que este trabalho de fato
precisava ser feito. O silêncio e o desconhecimento diante
do assunto são grandes.
Durante
mais de dois meses, a reportagem freqüentou as
unidades e abrigos da Região Metropolitana do Recife.
Lá, viu de perto a realidade desta parcela da população. É para
tornar público e pôr o assunto em discussão
que foi promovida esta série de matérias sobre
a realidade de pessoas crescidas nos intramuros das instituições.
A relação subjetiva com os abrigos, as causas
de abrigamento, a vida no confinamento e a maioridade penal
foram alguns dos assuntos trabalhados para dar corpo a essa
discussão. Meninos do Estado não é uma
câmera escondida, mas uma porta aberta pelos próprios
funcionários, crianças e adolescentes da Fundac.
Em respeito à privacidade das pessoas e ao Estatuto
da Criança e do Adolescentes, são fictícios
todos os nomes de menores e familiares presentes nos textos.
Sobretudo,
este é um projeto que acredita em pessoas
e na capacidade que elas têm de se reinventar. Que acredita
em mudanças, mas acredita também que estas só ocorrem
depois de nos conhecermos e conhecermos a nossa realidade.
Enquanto fechamos os olhos e ignoramos as questões,
os problemas não somem. Apenas se agravam. É preciso
que estas crianças e estes adolescentes sejam vistos
sim como os filhos do Estado - não o Estado da máquina
administrativa, mas o Estado como idéia de um todo social.
Eles são os meninos e as meninas de todos nós.
Carolina Vanderlei
Graduanda em Jornalismo pela UFPE