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O dia de visita num abrigo protetivo
Encontros e despedidas marcam a ocasião
 

O dia de visita nos abrigos é dia de afagar a alma das crianças e reacender a esperança de voltar para uma família. Mesmo a maioria dos abrigados passando por um processo de destituição do pátrio poder, alguns ainda mantêm laços com familiares que, dependendo do motivo de abrigamento, podem revê-los. O interessado em participar é previamente cadastrado, depois de passar pela equipe técnica, formada por assistentes sociais, advogados e psicólogos.

Texto de Guimarães Rosa
maternidade
O dia do encontro também é o mesmo da despedida

No pátio da Casa de Carolina, Fabiana, de 4 anos, alterna a brincadeira de pega-pegou com a montagem de um joguinho educativo com a avó paterna, a costureira Maria José Silveira. O pai da menina, que passa por sérios problemas de saúde, também a visita. Natural de Gravatá, no Agreste pernambucano, Maria José cuida do filho enfermo e veio ao Recife por conta do tratamento dele. “Meu filho tem uma traquéia de silicone. A garganta fica aberta e é preciso fazer curativos sempre. Às vezes, eu fico muito cansada com essas doenças todas”, desabafa. Eles vivem da pensão do marido da costureira, que morreu há dois anos. A costureira tem outra neta de 5 anos que mora no abrigo.

De acordo com a Diretoria da Área Protetiva, a avó não tem condições de ficar com as meninas, além de cuidar de uma pessoa doente e morar num local “inadequado”, na visão do Poder Público. Menos de um quilômetro separa o abrigo do Edifício Holiday, local no qual Maria José e seu filho residem. O prédio, no imaginário recifense, é sinônimo de prostituição e tráfico de drogas. “Não vou dizer que não tem isso lá, não. Mas também tem muita gente honesta. É claro que preferia morar em outro lugar. Estou lá por uma necessidade”, contra-argumenta.

O dia do encontro também é o mesmo da despedida. O choro de Patrícia, de 10 anos, denuncia a dor. Numa terça-feira que parecia ser mais um dia comum de visita, a menina ficou sabendo que sua mãe não ia mais vê-la com freqüência. A mãe de Patrícia, a dona-de-casa Edileuza Vasconcelos, vai voltar para sua terra natal, Caruaru, no Agreste de Pernambuco. Patrícia tem mais duas irmãs e um irmão vivendo com ela na Casa de Carolina, desde junho do ano passado. Uma chegou lá ainda bebê, hoje possui pouco mais de um ano.

A dona-de-casa tem mais dois filhos, numa conta de seis no total. Um menino de 14 anos que foi morar com o pai em São Paulo e a menina mais velha, de 16, internada no Case/Santa Luzia, para meninas infratores. Paula, a primogênita de Edileuza, ao saber do contato da reportagem com a sua mãe, pediu notícias dos irmãos e se emocionou. “Será que vai demorar muito para devolverem meus irmãos à minha mãe? Ela bateu neles, mas também não foi para matar, não foi um espancamento, não”, questiona a adolescente, que cumpre pena de um ano e quatro meses por assalto.

Edileuza, que vive de pensão e de uma “ajuda que recebe de um velho”, saiu do Agreste pernambucano para o Recife com o objetivo de trazer roupas para a filha mais velha. Chegando à Capital, ficou em um abrigo da Prefeitura, onde agrediu Patrícia. O Conselho Tutelar foi acionado e a guarda das crianças repassada para o Estado por conta da agressão e de outros motivos não revelados, visto que o processo corre em segredo de justiça. Sem os filhos, Edileuza alugou um quarto na favela do Vietnã, no bairro recifense de São Martin. “Vou voltar para Caruaru, não tenho mais como ficar na favela, é muita gente errada”, diz, acrescentando que não pretende desistir dos filhos. “Vou ficar vindo todo mês para visitá-los”, prometeu. Um mês e meio depois, a visita ainda não tinha ocorrido.

As crianças que não recebem visitas ficam preferencialmente dentro dos cômodos onde dormem. As mais extrovertidas saem para o pátio e “pegam emprestada”, como falou uma das meninas abrigadas, a família dos outros. Assim ocorre com a avó de Fabiana. Enquanto Maria José está no pátio, várias meninas se aproximam, interagem e, logo em seguida, já estão brincando com a senhora que, por alguns instantes, se torna avó de todos.

IMPORTÂNCIA

As visitas familiares são estratégicas para que os meninos e meninas abrigados sejam reintegrados à própria família. “A gente faz o possível para que a criança permaneça na família. O processo de destituição e a liberação para a adoção têm que ser a última medida e só podem ser solicitadas depois de todas as outras possibilidades terem se esgotado. Vamos atrás de avós, tios, primos, qualquer pessoa que tenha laços familiares e que, ainda de forma remota, possa se interessar em ficar com a guarda da criança.”, afirma a assistente social Krausenilda Nunes.

No contraponto, as assistentes sociais também fazem visitas às famílias e enfrentam dificuldades para realizar o trabalho. “Às vezes, as crianças moram em locais muito perigosos. Sem contar aquelas que chegam sem nenhuma referência de parentesco no relatório enviado pelo Conselho Tutelar. Algumas chegam, inclusive, apenas com o primeiro nome. É um trabalho de detetive que precisamos desempenhar”, complementa Krausenilda.


*Todos os nomes de crianças e adolescentes desta matéria, bem como os de seus familiares foram trocados em respeito à privacidade deles e ao Estatuto da Criança e do Adolescente.

 

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