cárcere
A vida no confinamento
“O cara tem que saber tirar cadeia. Quanto menos falar e ouvir, melhor”
 

“Às 16h, as celas são trancadas e ficamos lá dentro até às 8h da manhã, quando são novamente abertas. Acabo pensando em fazer besteira. Grade e parede, parede e grade o tempo inteiro”. A frase é de um interno do Case/Cabo, de 20 anos, preso por homicídio e que está há quase três anos em regime fechado. No Cabo, os jovens chegam a passar 2/3 do dia trancados dentro das celas. Alguns internos reclamam da superpopulação, da comida ruim, dos funcionários, mas a dor da perda da liberdade é uma constante em todas as falas. O jovem resume a vida no confinamento: “Aqui dentro, é um bem vindo ao inferno”.

Meninos do Estado
Em Pernambuco, existem 936 adolescentes e jovens em privação total de liberdade

O desejo de ir para o “mundão” não os abandona nunca e até uma gíria é usada apenas para pensar no mundo além dos muros. “Quando eu estou dentro da cela, fico fazendo os meus castelos, castelando no que eu poderia fazer lá fora. Pensando na família. A saudade que o cara sente é muito grande. Dá vontade de fugir o tempo inteiro. O único dia bom na cadeia é dia de visita”, lamenta outro rapaz de 17 anos, também preso por homicídio. No cárcere, o tempo parece caminhar em passos curtíssimos. As horas quase não andam. Principalmente, quando estão trancafiados dentro das celas. No Case/Abreu e Lima, os adolescentes ficam todo o tempo dentro dos pavilhões. Saem apenas para atividades, e com autorização dos agentes. Nas minúsculas celas abarrotadas, os internos de Abreu e Lima são presos a partir das 22h.

Dentro da cadeia, como falam os internos, as leis são outras. Uma ética própria rege o local. “O cara tem que saber tirar a cadeia. Quanto menos falar e ouvir, melhor”, aconselha um interno, de 20, preso por assalto à mão armada. Os mais velhos, mais fortes e com maior fama mandam nos de características opostas. É vital fazer alianças, arrumar um grupo. Amaldiçoados e tarados, respectivamente, assassinos de familiares e autores de crimes sexuais, não têm vez. Precisam ficar em celas separadas do restante, pois correm risco de vida. Os homossexuais também fazem parte do grupo de risco e os delatores, conhecidos como x-9, são perseguidos. É preciso ter jogo de cintura para se manter inteiro. Rixas e espancamentos aumentam a listas dos desprazeres cotidianos.

Enquanto a liberdade não vem, os internos ocupam o tempo com atividades que distraem a mente e o corpo. Futebol, aulas, cursos de iniciação profissional, artesanato ajudam a passar os dias. Outros nem isso. “Aqui dentro, não tem nada que eu goste fazer. Só faço dormir e comer”. Não há vagas para todos nas atividades e nem todos se identificam com as atividades proporcionadas pela Fundac.

Afastados do convívio social pelos altos muros das unidades, os adolescentes passam a ser invisíveis para grande parcela da sociedade, que apenas se lembra deles quando estes cometem crimes ou promovem rebeliões. A medida de internação é a última recomendada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, e tem duração de seis meses a seis anos. Em Pernambuco, existem 936 adolescentes e jovens em privação total de liberdade, distribuídos em cinco centros de atendimento socioeducativo (case). Recife, Abreu e Lima, Jaboatão, Petrolina e Cabo de Santo Agostinho são os municípios que sediam as unidades. Todas estão superlotadas.

 

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